Caleidoscópio do Éden
Quero que a verdade me consuma até o último gole

Dia santo para respostas

Sexta-feira, Março 27, 2009

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Todo mundo pergunta o que estou fazendo ali. Eu, com minhas botas pretas até o joelho, ali, onde todo mundo anda descalço. Eu, que uso conhaque com mel e limão em rodelas pra me conectar com o sagrado, ali, onde sempre tem água benta de manhã cedo. Eu, que incenso a sala de ensaio com o perfume da nicotina mentolada dos meus famosos cigarros, ali, onde o cheiro de mirra e arruda deixam todos na mesma frequência. Eu, mariposa. Ela, menina-deusa.

Hoje é dia 27 de Março, Dia Mundial do Teatro, e eu respondo, são duas as razões. Uma é ele, o teatro. Teatro é sagrado. E o sagrado está acima dos juizos de valor, acima das doutrinas e das crenças. O sagrado é, e apenas é, como Shiva e Dionísio que podem dar as mãos aquiescendo ao pedido de um artista de qualquer lugar do mundo que um dia sonhou que poderia ser assim. No teatro não existe o não-poder. E fazendo diferente como é aqui, reaqueço e enriqueço o meu teatro, a minha senda profissional e o sacerdócio que escolhi. Aqui eu estou ao lado, “assistindo” a magia do fazer que se mostra em meandros antes inexplorados, sob aspectos inusitados, com toda a verdade do “ser o que é”, com generosidade e pequenez, aquiescendo também para descobrir as respostas que não são minhas, as milhares de descobertas diárias, encontros e partidas, com toda a riqueza da matéria deificante que constitui o ser humano.

A outra é ela, a menina-deusa. Acredito que ela tenha o dom de fazer chover. Já fertilizou lugares ermos do meu coração, pedaços do meu sertão pessoal que há tempos não sabiam o que era um pingo de lágrima. Ela me mostra o ser tão diferente, que não é menos belo, menos mágico, menos sagrado. Há nela o fascínio das dicotomias vibrantes, ela é a menina que atira estalinho no chão do restaurante chique e a deusa que entra em êxtase cantando Gayatri Mantra. Às vezes tão frágil que não pára de piscar, às vezes tão forte que sobe nas costas de seus templários, arrancando com as unhas a seiva de sua arte. Ela sempre quer mais, não descansa nunca seus cabelos de fogo e seus olhos atentos. Tira o peso das coisas óbvias e valoriza as pequenas-grandes alegrias, com uma risada que troveja. Às vezes a odeio, às vezes a amo. Um espelho que não me reflete, mas que não pára nunca de mostrar coisas sobre mim que eu nem sonhava.

E sonho é a matéria que entorpece meus sentidos quando piso naquele piso A, e continuo escrevendo no papel e na alma, multiplicando meu olhar, ampliando e convergindo, condensando energias pra realização de um desejo que tornou-se também meu.

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Por que eu sou besta

Terça-feira, Março 24, 2009

Eu queria muito, é um dos meus sonhos, aprender a fazer croché, pra um dia fazer bolsinhas, chapeuzinhos, blusinhas, e todos os inhos e inhas que eu puder. É besta, mas eu quero. Sempre quis. Mas porque eu sou canhota e sempre me disseram que isso não me permitia aprender croché, e eu acreditei, fiquei só com a vontade. E isso é mais besta que o sonho.

Eu só quero ser besta por sonhar o que eu quiser, não por deixar meus desejos virarem fumaça porque há a patrulha do pode e não pode. Isso me parece tão óbvio hoje, esse texto todo parece tão besta, mas o fato é que eu ainda não sei fazer croché.

Aceito professores de croché e das demais deliciosas besteiras da vida. Sonhar eu sei. Junto, inclusive.

menina besta dormindo menina besta sonhando

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Achado de hoje (Gaston Bachelard)

Sábado, Março 21, 2009

“É nos desertos, no cascalho, nas grutas calcinadas que se revela a força onírica do tempo vazio”.

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Sobre o processo do sol

Sexta-feira, Março 20, 2009

A palavra está tomando corpo, as escolhas emergem, as vontades e desejos deixam as sombras das árvores secas e se banham com a luz do sol. E na luz, sem sombras, às vezes o que se mostra escapa a adereços e adornos. Nem sempre o que é dourado é ouro, mas sempre será precioso, por ser real.

E não há um só deus-sol, um só deus-arte, um só deus, porque deus também é deusa, e sem equilíbrio não se gira nenhuma roda.

um outro deus do teatro, shiva

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Ainda sobre janelas

Sábado, Março 14, 2009

janela aberta

Me nomearam fetichista. E eu ainda tenho medo ainda quando vejo o fetiche olhando pra mim através daqueles olhos rasgantes. De baú eu não tenho nada. Ainda não sei que tipo de caixa eu sou. Não pára nunca de sair coisas de dentro.

E que se danem as regras ortográficas, seja lá de que tempo. Eu estou mesmo é feliz porque aprendi a fazer rubricas que dão trabalho a quem me encena. E eu sempre darei, com prazer, trabalho a quem me lê.

“O lugar está às escuras. Sussurros crescem até que frases tomem corpo e peso, em um tom que torne impossível o
ignorar. Com as frases vem a música, acordes de violoncelo, sopro de acordeon e um ar romântico de dois séculos
atrás, do início dos primeiros parques de diversões, um som que lembre maçã do amor dividida por dois, viagem de carrossel.
As luzes revelam pouco a pouco uma estreita passarela, que leva a um jardim secreto de árvores espinhosas e
espessas, de verde oliva e carmesim, cujos frutos são pedaços de espelhos. É ali que ela chega, a mulher com um
pequeno baú que lembra uma caixa de música. Não parece ouvir as frases que se estendem como reminiscências
diante de quem ouve. O jardim brilha e revela recantos inexplorados quando suas sombras são clareadas por
uma luz quente e latina. A mulher com o baú se senta no centro do jardim, ela conhece o lugar, aquele jardim é
dela. Ali ela revela seus delírios, lembranças, angústias, vontades. O jardim, as árvores do jardim e seus frutos-espelhos
são o seu diário.”

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Entre bandoneons, baús, jardins e Rayaras…

Quarta-feira, Março 11, 2009

maracujá é trepadeira

 

As estações do ano têm me perseguido. As forças dos ventos e das tempestades, ou aquelas que fazem crescer belíssimas trepadeiras nas janelas das casas. O engraçado sobre as trepadeiras, é que sempre que elas crescem, alguém sobe, ou trepa, e entra pela janela. É inevitável, certo como cair chuva depois de um dia muito quente.

Tenho deixado a minha janela aberta pra esperar a chuva, porque o verão está para acabar. As trepadeiras que crescem nela, são frutíferas. Disseram que as flores são doces, mas só sinto esse sabor nas frutas. Pitangas, morangos, cerejas. Quanto mais vermelhas melhor. Queria deixá-las lá, crescendo bem no parapeito. Porque eu sei que quero o fogo, mas nunca disse que não gosto de brincar com a terra molhada. E sei também que alguns aromas não são para o nariz, são para a boca.

Nesta espera aprendo mais sobre voltar ao passado para desejar o futuro. Dá medo, principalmente de não saber onde colocar os olhos ou as mãos. Aprendo que sou incorrigível, porque muitas vezes já podei, outras vezes arranquei pela raiz as tais trepadeiras, e ainda cobri tudo de cal, pra apagar os caminhos. Mas é só vir chuva forte e pronto. Os caminhos se tornam profundas raízes, essa é que a verdade. Nada mesmo faz sentido, ou tudo faz.

E o que mais amo no outono é que a cor que tem é para ser comida.

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