Caleidoscópio do Éden
Quero que a verdade me consuma até o último gole

O Avesso de Eva

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Em um palquinho, bem pequenino, em um Café Teatro no coração da cidade, está morando mais uma história que escrevi pro teatro contar. Dois amigos de infância e uma mulher vestida de vermelho. Os três suscetíveis. Os três embriagados pelo desejo.

Há cinco anos atrás eu acendi um cigarro, enchi uma caneca de café e comecei a pensar em um trabalho de dramaturgia que deveria realizar, para a professora Cleise Mendes. Estava então no primeiro semestre de Direção Teatral. Deveria criar uma situação dramática inédita. Tocava um tango quando Mercúrio, o escritor atormentado, me encontrou. Era um fim de tarde quente, o sol estava naquele tom de vermelho que anuncia a noite, e foi daquele tom inflamado que Diana surgiu. Imediatamente desafiadora, provocando Mercúrio a dizer a si mesmo a verdade sobre o que sentia por seu melhor amigo, o frágil Heitor. Os três dançaram diante de mim, e me obrigaram a varar a noite até que a história estivesse terminada. Mas não estava.

Tentei encenar aquele texto duas vezes, com elencos diferentes, e não consegui. Demorei para entender o que ela queria. Anos depois, o que se chamava ‘A Dor e a Delícia’ se tornou ‘O Avesso de Eva’. Aí eu já era outra. Serpentes haviam me picado e eu havia me sentado à mesa com uma princesa apaixonada e um profeta obstinado. Mais do que tudo, eu já não tinha porquê fugir de minhas perversões.

Foram dois intensos meses de mergulho na latinidade desse intenso triângulo amoroso, que tem pontas difíceis de unir. Ontem a história se fez carne pela primeira vez, finalmente. Com as pessoas certas, destinadas, únicas. É engraçado quando os vejo no palco, eles realmente me dão prazer, a despeito de todas as adversidades que essa montagem enfrentou. Minha fé foi testada demais desta vez, eu vi mesmo o avesso de mim e dos outros, mas o melhor é encher o peito e a alma pra dizer ‘sem arrependimentos’. Disseram que é possível ouvir minha voz no texto dos atores. Será? O que sei é da embriaguez que me tomou, de mais uma alquimia feita a muitas indispensáveis mãos.  Como só poderia ser.

É tudo muito pequeno no Café Teatro Zélia Gattai. Menos a vontade. A vontade coletiva. E é ela quem me move. Sempre.

Será um prazer recebê-los por lá pra ver até que ponto um devaneio de fim de tarde ou uma imensa vontade conjunta podem ir. Sempre.

Aí vai o serviço:

O Avesso de Eva

A Casa de Jorge Amado recebe nas terças, quartas e quintas-feiras – de 17 de novembro a 10 de dezembro – às 20:00h, a peça teatral O Avesso de Eva, encenada pelo Teatro Saladistar. O coletivo, cuja última montagem, Salomé, de Oscar Wilde, foi indicada a dois prêmios Braskem de Teatro, investe agora em um texto inédito. A história explora as muitas possibilidades estabelecidas por um triângulo amoroso. Dois amigos de infância, um dramaturgo e um restaurador de obras de arte, vêem sua amizade testada e levada a outros graus de sentimentos quando surge em suas vidas a audaciosa Diana, mulher que segue a lei do desejo acima de qualquer convenção social e regras de boa conduta. A encenação tem livre inspiração no cinema noir, pontuado na atmosfera do espetáculo desde a trilha sonora até o desenho de luz, repleto de cortes e sombras que deixam ao espectador o papel de investigador. Ainda apoiada na pesquisa que une a linguagem teatral à linguagem cinematográfica, o espetáculo brinca com a unidade temporal, deixando fragmentos e pistas que se mostram verdades ou o avesso, em cenas de intrincado encadeamento, em um crescente clima de mistério ligado à tensão desenfreada entre os três personagens. O Teatro Saladistar surgiu em 2007, a partir do encontro de um heterogêneo grupo de artistas oriundos, em sua maioria, da Escola de Teatro da UFBA e liderado pela diretora teatral Amanda Maia. O coletivo realiza pesquisas e investigações cênicas numa proposta contemporânea e polissêmica dos signos de nosso tempo, aliando teatro à música e à dança. O Saladistar já montou A Serpente, de Nelson Rodrigues, e Salomé, de Oscar Wilde, espetáculo indicado a dois prêmios Braskem de Teatro em 2009, vencedor com o cenário de Rodrigo Frota.


Ficha Técnica:

Texto e Direção Geral  Amanda Maia                        

Assistência de Direção Victor Diomondes
Elenco Ciro Sales, Vivian Rigueira e Will Brandão
Preparação Corporal e Coreografia  Raphael Veloso
Cenário Rodrigo Frota
Indumentária Hamilton Lima
Maquiagem  Renata Cardoso
Desenho de Luz Pedro Dultra
Direção de Produção Raphael Veloso
Equipe de Produção  Daniel Moreno, Helena Marfuz, Letícia de Castro e Victor Diomondes
Hostess  Brisa Morena
Realização  Teatro Saladistar

Serviço:
Onde: Café Teatro Zélia Gattai – Fundação Casa de Jorge Amado – Largo do Pelourinho, 51, Centro Histórico
Quando: 17, 18, 19, 24, 25 e 26 de Novembro e 1, 2, 3, 8, 9 e 10 de Dezembro, às 20h
Quanto: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia) - O espaço aceita cartões de crédito e débito.
Realização: Teatro Saladistar
Co-realização: Fundação Casa de Jorge Amado
E-mail: producao@teatrosaladistar.com
Site: www.teatrosaladistar.com
Contato: 9278-4868 / 8795-9598

3 reescrevendo:

Entendo todo o vermelho. Entendo toda a doçura da cor viva dessa boca pintanda. Esse avesso é em carne viva. Desses sonhos todos postos para fora depois do trago, que defumam nossas peles.

Sempre falei que estava AVESSO. Hoje digo que não. Por isso sou o avesso de mim. O v continua sendo essa boca entreaberta, pronta para "impropérios" de toda a natureza. Pronta para todas as possibilidades. Pois beijo então. Sempre. Sempre. E na saladistar, que é mais gostoso.


Puxa, que cartaz! Parece mesmo cinema. Não sei se poderei assistir, mas desejo todo o sucesso pra vc, encenadora vermelha!
Cheiro.
Nico.


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