Caleidoscópio do Éden
Quero que a verdade me consuma até o último gole

Eu ouvi o amor cedo

eu já fui a Fada Sininho

Eu devia ter uns 7 anos. Era uma tarde de verão em Realengo, último bairro onde morei na minha infância carioca. Eu estudava de manhã, então tinha as tardes pra explorar o mundo de dentro das grades azuis das janelas da minha casa. Lá estava um LP das centenas que sempre estiveram por lá. Como sempre, eu me encontrava só. Resolvi colocar um sambinha na vitrola, o título da faixa, Samba em prelúdio, me chamou a atenção. Então, o meu coração ouviu.

E ele me tomou, o amor, com o frescor e o medo de quem põe as mãos em um portal para o desconhecido. Durante os quase 4 minutos daquele momento, minha alma encontrou caminhos que a minha mente jamais acompanharia. Nunca me recuperei do amor, pra mim eternamente assim mesmo, um samba em prelúdio. A absurda e absoluta entrega de alguém a outro. O amor são tantos. Mas o meu é sempre assim, desesperado e definitivo, inteiro e extremado. O amor do último segundo.

E tão cedo quanto chegou o amor, chegou o caminho único que me foi destinado, escrito pelas mãos de um Vinícius, provavelmente com tinta de conhaque e incensado com fumaça de cigarro. Ouvindo aquele sambinha triste verti a primeira das lágrimas do mar da minha intensidade. A partir de Vinícius entendi, e entendo, minha natureza de antíteses e paradoxos. E choro mesmo, não economizo a verdade do que cada momento me exige. E quero tanto assim mesmo, e pronto, porque me dou pra lá de por inteiro. Se alguém desconfiar, me olhe nos olhos. E se mesmo assim duvidar, toque esse samba. Porque o amor nunca se escondeu de mim.

_______

Samba em prelúdio
Vinicius de Moraes / Baden Powell

Eu sem você
Não tenho porquê
Porque sem você
Não sei nem chorar
Sou chama sem luz
Jardim sem luar
Luar sem amor
Amor sem se dar
Eu sem você
Sou só desamor
Um barco sem mar
Um campo sem flor
Tristeza que vai
Tristeza que vem
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém
Ah, que saudade
Que vontade de ver renascer nossa vida
Volta, querida
Os meus braços precisam dos teus
Teus abraços precisam dos meus
Estou tão sozinho
Tenho os olhos cansados de olhar para o além
Vem ver a vida
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém

1 reescrevendo:

Ai, esse é um aperto no peito. Desses do sangue descer pros olhos e cair bem salgado para a boca. Tem gosto de samba na vitrola seu texto. Meu peito girou naquele alfinete. E tocou só o lado A... Indo para o B.


Twivialidades

    Siga-me no Twitter

    Quem me lê


    Últimos escritos

    Reescrevendo