Caleidoscópio do Éden
Quero que a verdade me consuma até o último gole

E tantos outros desatinos

Salomé entrega os 7 véus

Carta a Oscar Wilde, em resposta à primeira, quando eu não sabia onde me metia ao resolver contar a história do desejo da princesa Salomé. Carta de perplexa constatação na ocasião de nossa apresentação em Lauro de Freitas, chamado pelos artistas locais de Santo Amaro de Ipitanga, na 4a edição do Festival Ipitanga de Teatro, no dia 21 de Maio de 2009. Carta-declaração de amor e agradecimento àqueles que me fazem diariamente ter orgulho de fazer teatro, de ter escolhido esta senda, de ter feito amor com Dionísio.

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Wilde,

Inacreditável é juntar tanta gente pra contar uma história tão trágica e rir tanto. Rir junto, todos os muitos que somos. É assim por lá. Quem quiser saber o que é fé, basta olhar aquela corte, do rei hedonista, da rainha perversa, da princesa apaixonada. Contamos a história do desterro e vivemos um conto de fadas. Pessoas tão diversamente admiráveis, uma outra corte pra mesma história, uma outra história praquela corte. Tenho andado por aí e só posso atestar que o que somos é um fenômeno de bons auspícios dionísiacos, donos do prazer inenarrável de fazer aquele teatro e sentir o cheiro bom de vinho barato que temos juntos.

Fomos pro quinto dos infernos, lugar que chamam de Santo, e chovia com a força de todas as comportas abertas. Quase sem luz pra iluminar nosso banquete, quase sem espaço para acomodar nossos convidados, e enfrentamos. Camarim alagado e estávamos lá, maquiagens a postos, olhares roqueiros transformando-se em seda. Os leoninos do palco e da música revesavam-se em um lugar de flautas e rocamas, sinfonia assustadoramente perfeita. Martelos e tachas em lugares outros, tão pouca roupa, sob as impressões nervosas de quem não vê tanto sexo exalando há tempos, talvez nunca, e nós com toda a coragem do mundo. Aliás, coragem já não é mais a questão, todas as provas de fogo já passaram daqui.

Escolhi fitas violeta pra adornar meu pseudo-figurino, pra ostentar o significado dessa cor, que rege os destinos pelo vermelho que tem e abençoa as confluências com sua metade azul. E quando faltavam 20 minutos pude parar pra tomar ar e ver, de longe, aquela máquina mágica pronta para enbevecer os desavisados. Pude constatar ali o quanto gostamos do que fazemos, não falo do todo (que é óbvio), mas do específico de emprestar corpos e almas para arrebatar quem olha para o que oferecemos em nossas bandejas.

Naquele momento, e nos 50 minutos de loucura subsequentes, pude traduzir toda a minha concepção em um ato que se mostrou o certo em qualquer lugarejo onde baixemos os nossos véus. Tudo aquilo é uma imensa oração profana, que nada tem de herética. Oramos para que os desejos mundanos façam com que eles se olhem no espelho que carregam atrás das armaduras diárias e encontrem sua humana santidade. Quando a princesa dança e o avatar se contorce, arranca as amarras de quem sempre salivou pelo proibido, mesmo que saibamos que essa invasão possa insidir em negativas e arrepios.

E o que fazemos naquela mesa passa longe da mentira, lá somos nossos duplos como diria um francês louco. Vi essa perigosa teoria aplaudida por nós mesmos, pois somos ali todos essencialmente amigos, e na amizade não há lugar para a profanação da verdade. Passamos tempos sem sentir uns aos outros, mas a amizade é isso, é berrar em um lugar sem acústica sob o campo de força de uma chuva fecunda, sem desistir, sem fraquejar e sem combater nossas tão abundantes idiossincrasias. Amizade é rir junto rumo ao obscuro futuro. Amizade é confiar seu último adorno ao outro. Amizade é dançar espontaneamente a dança dos 7 véus.

Era a minha peça de formatura, era só isso eu pensava. Tornou-se um mantra em horas de caos, horas em que tudo parece errado ou grande demais, onde as pessoas não se olham, não se querem, não se permitem. Era o meu projeto e tornou-se uma ode eterna ao teatro e à amizade. Era meu e tornou-se tão nosso que é difícil imaginar o quanto. Nem somos um grupo, somos um coletivo, nem ganhamos dinheiro, mas naqueles idílicos momentos nossas vozes nos pagam. Somos um coletivo de enamorados. Ali acreditamos no que Salomé diz e só olhamos o amor, sabendo que a morte nunca será, nem de longe, um fim.

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A foto de Luiz Gonçalves, mostra a princesa Salomé, interpretada por Luisa Proserpio, entregando seu último véu ao profeta Jokanaan, interpretado por Will Brandão. A ficha técnica dos meus amores na peça Salomé, de Oscar Wilde pode ser conferida no blog do espetáculo.

1 reescrevendo:

Um dia irei lhe falar como me sinto nessa corte... Talvez escrever. Mas estou agradecido por estar nela.


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