Pra não dizer que...
Terça-feira, Setembro 23, 2008Ar elétrico. Respiração sôfrega. Saias, vestidos, decotes. Pele exalando vontades, vertidas em gotículas de suor. O colo transpira. Bocas pintadas se entreabrem em suspiros. Bocas molhadas com facilidade. Pernas insistem em se cruzar. Desejo de ser toque. Desejo. Sorrisos recorrentes, sem motivo até. Olhares para o céu. Olhares para lugares específicos. Olhares. Mundo cheirando a mato, a flor, a cópula. Pessoas resvalam umas nas outras. Cores roçam umas nas outras. Malícia que antes não existia. Animais trepando. Trasparências. Calor.
Adoro a primavera.
Procurando a árvore certa
Quinta-feira, Setembro 04, 2008
Nos dias 2 e 3 de Setembro, ocorreu no Teatro Vila Velha o Seminário História do Teatro Baiano, que divulguei no Ratoeira Cênica por ser uma iniciativa do grupo de um aluno egresso da Escola de Teatro, Luiz Antonio Jr, oriundo, assim como eu, do semestre que inaugurou o novo currículo da Escola.
Não é minha intenção fazer uma cobertura jornalística do evento, embora eu possa dizer que foi muito bem estruturado e organizado, a platéia estava lotada, inclusive por pessoas que não são da "classe artística" e os convidados mostraram muita consistência. Eu realmente aguardo ansiosa pelo documento que será gerado da transcrição das falas dos convidados.
Posso dizer também que houve dois momentos absolutamente fora do lugar: a fala da vereadora Olívia Santana, que chegou "oportunamente" apenas para fazer discurso de campanha disfarçado de comentário sobre o Seminário e foi embora, e a tentativa de discussão sobre a Reforma Currícular da Escola de Teatro, um assunto de extrema importância mas que muitas vezes é usado como arma para destilar veneno contra o professor Paulo Dourado.
Porém, o comentário que realmente quero fazer é absolutamente idiossincrático. Não falo muito sobre o mundo lá fora, prefiro ficar com meus devaneios, e não é da minha natureza tomar partidos oficiais das coisas. Prefiro os oficiosos. Mas, aquilo tudo mexeu comigo, me fez reafirmar ou assumir posturas que despontavam em mim. O sentimento de pertencer, o desejo de caminhar.
Explico. Nunca gostei da expressão "classe artística". Acho que ao longo do tempo este termo se tornou pejorativo até pra quem é de dentro. Conheço poucas pessoas que não usam um tom irônico quando dizem essas palavras. Fora o pedantismo... Mas acredito que algum termo preciso existir, então... No Seminário, observando a "classe" em seu próprio habitat, percebi (sem nenhuma intenção de ter descoberto a pólvora) que há uma natureza artística. Há um jeito de fazer as coisas comuns que não é tão comum assim, há um fio de pensamento, uma predisposição ao acaloramento, essas coisas.
Foi fascinante ouvir o que aqueles seres tão diversos tinham a dizer. Mais ainda entender suas histórias, entender o discurso atrás do discurso, entender os seres de agora a partir de suas falas sobre o passado. E perceber que haverá pra mim um futuro onde estarei falando de agora. Entender/assumir que sou uma pessoa de teatro, que esta é a minha senda, e que tenho algo em comum com todos os convidados, independente de seus posicionamentos políticos.
E o que o Seminário me mostrou de mais importante, com a clareza da síntese, é que independente do caminho, o importante é não estar só. Os maiores e melhores momentos mostrados na trajetória do teatro desta cidade foram vividos e produzidos em GRUPO, além do quê, foi um Grupo que produziu o evento. Lembro das palavras de Luiz Marfuz em meu primeiro semestre: não saiam da Escola sozinhos.
Há que se investigar, há que haver a comunhão de propósitos, há que haver um propósito. Ao longo de minha vida na Academia, pessoas interessantíssimas passaram por mim, tive a oportunidade de conhecer e trabalhar com muita gente boa. Mas quase todos apenas passaram. Alguns levaram consigo pedaços de mim. Outros me deixaram presentes.
Agora não tenho mais a mãe-escola pra me ninar. Preciso fazer meu próprio ninho. Preciso reunir os pervertidos como eu, rsrs. A primavera se aproxima. E se esse é o primeiro ano do resto da minha vida (pra ser bem anos 80), ao menos eu já sei a vida que eu quero ter.
O que a minha geração terá a dizer?
Achado de Hoje (Paulo Dorurado)
Quarta-feira, Setembro 03, 2008"A memória é bailarina. A memória é sedutora. E quase nunca honesta."