Caleidoscópio do Éden
Quero que a verdade me consuma até o último gole

março

Segunda-feira, Março 31, 2008

março 2

"Você vai me deixar ir sem provar o gosto da sua boca?", ela disse. "Você está demais...", disse a outra.

O momento se foi. Passaram-se segundos ou anos, ninguém sabe ao certo. A pergunta continuou devorando-a com a força de uma tempestade que desaba uma montanha. "O que eu faço com a minha vontade?", ela pensava. Um dia deu o primeiro passo, e depois outro. Seu braço se estendeu sozinho e sua mão fechada se ergueu. Bateu na porta com o coração às cambalhotas. Se havia qualquer dúvida sobre a vontade, ali se desfez na mais completa necessidade de tê-la. Controlou-se. Olhou no fundo do castanho-açaí dos olhos dela e disse.

"Só não fala. Apenas escuta e depois faz com isso o que quiser. Estou te dando meu coração numa caixa enlaçarada, com papel seda e tudo, meu coração que teima em pedir você de presente.

Eu já te sentia. Tinha certeza de que em um dia de sol ardente, os Deuses te trariam até mim. Não foi diferente. Foi sem avisar, como eu sabia. Numa terra de calor escaldante, você conseguiu, quando entrou naquela sala, incendiar o inferno. Senti minha vida se dividindo. Tão desafiadora, tão instigante, tão misteriosa. Sua voz, seu corpo, seus cheiro, seus olhos, sua boca... e eu tonta. Você não percebeu, mas eu saí. Fui ao banheiro e me olhei no espelho, o coração engraçado, batendo forte demais, levando sorrisos involutários ao meu rosto. Me olhava no espelho e não duvidava, você havia me enfeitiçado. E não havia em mim a menor vontade de fugir.

Fiz muitas poesias na vida, todas sem dono até te conhecer. Não vou mentir. Te desejo. Quero ir do seu pescoço ao teu sexo com a língua, de textura a textura, do doce ao salgado, sorvendo teu cheiro sem pressa. Quero te devorar por completo, minhas mãos percorrendo cada pedaço que leva à sua alma enquanto sua respiração arqueja, desesperada pelo ar que não chega porque o desejo o rouba, quero te olhar enquanto suas pernas se abrem e me deixam ver todo o caminho que minha boca percorrerá até o mais delicioso dos gostos, de onde vem esse cheiro que você tem e que me domina. E então, quando seu pescoço, seus braços, seus seios, sua cintura e sua barriga forem meus, te invadirei inteira, sentirei a textura suprema e molhada do seu sexo aberto, entregue a mim com a fome que nunca cessa, com a sede que não acaba, com a violência do encontro. Te quero. Te quero muito. Daí a poesia será o momento, e não haverá papel e tinta no mundo que cheguem perto da beleza de estar contigo.

Era o que eu tinha pra te dizer. Seja minha. Deixa eu te ter, deixa eu sentir na carne o que já sei. Deixa eu estar com a Musa que me acompanhará em todas as eras. Deixa eu te ter, eu te peço. Sem pensar em ser a primeira ou a última vez, mas te ter inteira, para além dos meus lascívos pensamentos. Deixa eu te levar pra dentro de mim pra você sentir o tamanho do calor do meu desejo. Deixa."

A porta ainda estava aberta. As pupilas castanho-açaí da outra dilatavam. A boca mexia-se em um sorriso indefinido. Os olhos não se deixavam desviar, os passos vieram devagar, uma ao encontro da outra, tão lentos como gira a Terra, tão rápidos que o mundo em volta simplesmente parou. Ela sentia mais e mais o cheiro que a tirava do chão, a temperatura, a eletricidade. As bocas se abriram levemente e se colaram intensas, vorazes, as línguas enfim brincavam, as mãos passeavam entre nucas, cabelos, pele. A porta se fechou, o mundo lá fora desapareceu e dentro daquela casa e daqueles corações a alquimía se fez inteira.

___________________________

Só um conto, um continho, desses colegiais ou então do site da Sexy Hot... Um estudo sobre o que o calor asfáltico faz com a criatividade das pessoas.

Read On 0 reescrevendo

Não sou Armand, sou lestat

Sábado, Março 29, 2008

Fev2008, Sépia

Mais um dia nesta esquina do mundo, Costa do Sauípe, curtindo a solidão do piso limpíssimo, da roupa de cama com cheiro de eterno limpo. Estava eu no meu solitário almoço quando ouvi uma menina de uns 4 anos falando copiosamente, em alemão. Fiquei completamente absorta pela cena, um ser descobrindo o mundo, falando, falando, falando... em uma língua que eu não entendia. É assim, o mundo acontece, a vida segue seu curso, sempre pra frente, quer você entenda ou não. Há sempre vida, em todos os lugares, e esses lugares são incontáveis, vão muito além da nossa vã filosofia.

Neste mesmo dia, alguém me disse "você passa muito tempo de sua vida chorando, e isso não é diferente de morrer". Será? Só sei que me sinto mais viva a cada dia. Já experimentei a morte, de diversas formas, em vários cálices, com vários sabores. Do alto desta experiência acumulada posso dizer que a morte não tem gosto de lágrimas. A morte tem gosto de nada. A morte tem gosto de dia não amanhecido, sabe como é? A morte tem gosto de não estar, de não valer a pena, de não-amor. Posso afirmar, estou bem longe desse gosto.

No momento, o que sinto é o sabor salobro da solidão, misturado com a fome corrosiva da paixão. Verbos ativos-positivos me dão tapas na cara e socos no estômago, rasgar, beijar, tomar, sorver. Vontade de ser a tônica do palpitar de um coração. Que alguém abra os olhos e sinta o meu nome vir à boca, como aquele gole de ar que salva a vida do afogado. Cansei de ser diva, inspiração, avatar, metáfora. As mordidas eu quero sentir na carne, com sangue escorrendo, de preferência.

Não quero salvar o mundo não. Só não quero deixar de sentir meu coração. E ele bate sempre saindo pela boca.

Read On 1 reescrevendo

Twivialidades

    Siga-me no Twitter

    Quem me lê


    Últimos escritos

    Reescrevendo