Só sei que havia uma mulher trancafiada em si mesma. Essa era eu. Presa em meu jardim secreto particular. E havia uma menina de voz doce que andava agitada pelos jardins. Essa era ela. Era outono e chovia. Houve então um aguaceiro. É só o que me lembro.
Daí, há o que sinto. Houve uma chuva de interrogações externas. É infindável a disposição das pessoas para julgar o caminho alheio. Cansei das indagações tão adocicadamente venenosas. Vieram os rótulos. Alguns eu assumi. Com prazer.
Então ela foi sim a minha atriz-fetiche. Seus olhos e seu coração me deram alguns dos momentos mais intensos dos últimos 4 anos. Por ela, assumi riscos. Por ela, assumi erros... e acertos. Por ela, ou através dela, reencontrei a chave do labirinto que me levaria de volta ao meu jardim. Foi minha musa, mesmo que o planejado não fosse esse. Havia aquela que eu não ousava dizer o nome. Essa era apenas a confidente. Mas não me lembro de ter sido ouvida com tanto prazer. Não me lembro de tanto brilho nos olhos. Ninguém havia me visto por aquela lente, por aquele filtro púrpura.
Os altares diante dela eram muros para o resto do mundo. Como lutar contra tantos santos? Como lutar contra a vontade de ser santa? Como vencer o desafio de vencer a si mesma? Mas a sede devorou os cânones, e colocou a virgem e a bruxa frente a frente, espelhos da mesma loucura, e a ela me dei toda, inteira, fiel à insanidade de minha devassidão cotidiana, mundana ao extremo, artista talhada na concupiscência.
Eu a vejo como quero. Olhos barrocos embotados por vinho barato, papel celofane, jogo de 3 marias, espuma de cerveja e tango. Ninguém alcançará o quanto não me arrependo de tudo o que foi, de tudo o que não foi e de tudo o que ainda será. Pois nem um oceano pode romper os desvios criados pelo desejo. Afinal, digo do que há em minha cabeça, e nela não há quem mande. Graças. Se eu quiser, faço rimas com métrica perfeita. E hoje é dia das bruxas. Graças a isso também.
Não costumo jogar papel escrito fora. Respeito meus sentimentos e o que escrevo na mesma medida. Mas o que escrevo agora foi rasgado e refeito muitas vezes, por diversas razões, sendo a mais importante o decurso do tempo e o poder que o acompanha de provocar redimensionamentos. Mas, acima de tudo, queria ser fiel à minha obsessão pela verdade subjetiva. Queria não ser mais ou menos intensa, dizer o que penso na medida certa, sendo esta desmedida ou não.
Porque no fim é disso que se trata este registro. A medida certa da desmedida. Das cores com as quais pintamos as pessoas. E das peças que o passo inexorável do Deus-Tempo nos prega. Então só sei do que me lembro. E do que sinto.
In halloween, with love.
01 Dezembro, 2008 10:06
São muito bons os seus textos!! beijos
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