Caleidoscópio do Éden
"Posso resistir à tudo, menos à tentação"

O ÚLTIMO TANGO EM PARIS

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Do alto do edifício, o vento forte revolvia os caracóis de seus cabelos negros. O brilho das ruas estava embaçado, as lágrimas criavam vapor em seus óculos. O mundo parecia pequeno. O tempo havia esfriado, mas não era possível sentir, em parte por seu longo sobretudo, em parte pelo sangue fervendo em suas veias. Quantas provações ainda lhe aguardavam na vida? A impressão que tinha era a de ter vivido 100 anos nos reais 23 com que foi brindado. As marcas em seu pescoço ainda latejavam. Jamais poderia ter imaginado a que ponto chegariam as coisas. Há meses atrás era só mais um ser não notado, com seu all star surrado, seu caderno de desenho e a imensa arrogância de quem assiste nouvelle vague. Havia um grito que teimava em sair sem som de seu peito. As pessoas tornavam-se traços. As pessoas passavam através dele. Até que ela não passou. Até que só havia sua boca e seus olhos alaranjados. Ele a desenhou em sua folha e em seu coração, com canetas diferentes, mas certificou-se de que não fosse possível apagar. Bastava esfregar os dedos e ainda estava ali. A textura, o cheiro, a temperatura. Ela ainda estava ali. Inteira. Os últimos meses haviam se precipitado como uma chuva de gafanhotos. Ele nem sentiu a mordida. Só havia a vontade de gritar. "Eu sou seu". "Eu sou seu".

Estou morrendo, ela pensou. Meu tempo passou. Então porque a maldição não me deixa? Só um pouco. Estou morrendo. Será que ele não vê? Nunca fui fada, nunca serei. Minhas mãos estão sujas e sempre estarão. Meu coração escurece um pouco mais a cada dia. Essa sede de sangue um dia me tomará inteira. Da mesma forma que ele me toma agora, e me faz rodopiar para um lugar desconhecido. Seus olhos me despem, me tocam, me invadem. Ouço meu coração se desmanchar em gemidos. Devo arrancar seus olhos, porque ele me vê e minha maldição é sentir. Quando ele me olha, é dele que sou.

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Começou de um jeito e terminou de outro. Não. Não terminou. Muito poder nas mãos de uma só pessoa. Não há muita poesia aqui. Mais um conto inacabado, talvez. Talvez não. Nada é preto nem branco nesse céu azul flamejado de vermelho. Vampiros estão na moda, mas eu os descobri há muito tempo. Criaturas solitárias com um grande poder de observação. Dizem que muitos são escritores. Muitas declarações. Há quem entenderá, eu sei. Eu não. Maybe tomorrow.

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