Caleidoscópio do Éden
"Posso resistir à tudo, menos à tentação"

I have so many questions...

Ludmila em Salomé, por Léo Azevedo

Ainda sou uma caloura. Ainda há nos meus olhos o mesmo ardor da primeira vez, quando vejo os jardins dessa Escola. Agora me chamam. Ainda tenho tanto a ver. Tanto a fazer. Tanto a aprender. Os tijolos amarelos se estendem à minha frente, mas insisto em olhar pra trás, impulsionada pela gratidão e pelo gosto de manga madura das tardes de verão.

Vi uma menina, de nome Ludmila. Ela fez meu coração bater mais forte. Acho que é a paixão que ela exala. Um desespero talvez. Faz sempre as coisas como se fosse o último segundo, embora sua voz e palavras sejam pausadas e pensadas. Quando a vi pela primeira vez, havia um labirinto desenhado em sua testa, será que ela sabe? Ela parecia gritar, não me tirem daqui! Quis saber, quis perguntar, quis chegar. Mas sempre haverá uma multidão entre nós. Não, não são os cúmplices do baile, não são as entidades maiores que a vida, tampouco o panteão de pessoas divinamente imperfeitas. A multidão é composta de eus. Há entre Ludmila e eu as amarras do tempo, que além de cinismo e ceticismo também me deram a errônea certeza de que ninguém me vê.

Eu não queria chegar como a diretora da história da princesa, a libertina, a artista, a estrangeira, a camundonga, a mãe, a mulher, a bruxa. Eu queria chegar como Amanda e só. Dizer que sei o que é precisar pertencer a este lugar. Dizer que já pulei de um carro em movimento, e voltei na velocidade da luz uma vez, a primeira vez, para ser casa, voz, corpo, coração de alguém que precisa de mim para existir. Sim, eu já fui atriz. E levantei todas as bandeiras do mundo, enfrentei quartos escuros e ameaças de me tornar sem lar para viver a minha verdade. A minha e a daqueles que abriguei. Eu vi, Ludmila. Eu vi. Mas não pude chegar.

E quando te agradeci, foi por ter visto através dos seus olhos e seus gritos o quanto ainda tenho medo. Deveria ter ficado de joelhos diante da sua grandeza, da sua imensa capacidade de confiar o que você tem de mais precioso a alguém tão distante. Obrigada por ter me dado, nesses quatro meses, o seu coração. Porque só por e através dele, alguém se dá tanto.

Só posso mesmo ajoelhar diante da sacerdotisa que se apresentou diante de mim em todas as apresentações em que carregou a responsabilidade de ser a primeira a ocupar o tablado de ferro e cristal. A primeira a adentar o ritual sagradamente profano em nome do desejo, da danação e da fé. E mais. Coube a você se erguer para sugar a inocência do chefe da guarda e fazê-lo sorver os domínios da carne. Não, não foi por acaso. Todos os cúmplices do baile estavam na posição que eu gostaria que ocupassem. E a sua é aquela. Sei que em cada noite sua alma se rasgava. E nesse momento, a vida corria em enxurrada em suas veias.

Só posso, mais uma vez, te agradecer por ter me ensinado tanto. Por me mostrar que é a verdadeira veterana. Dizer também que ouvi. Ouvi tudo. Mesmo que não parecesse. E foi nesta Escola de magia e bruxaria que pessoas de tão longe ouviram o pulsar de um chamado para além da nossa "vã filosofia". Eu sei que você não duvida. Aliás, nunca duvidou. E espero um dia ser digna de chegar até você. Meu Deus é o Tempo.

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Na foto, Ludmila, atriz e cúmplice do elenco, em cena do espetáculo Salomé, de Oscar Wilde.

4 reescrevendo:

Amanda, seus textos são lindos, fico aguardado as atualizações. As questões e reflexões são típicas dos primeiros passos após uma grande experiência. Parabéns!


Engraçado enxergar desse lado...


Aquela que se mostra para aquela que se permite ver, enxergar, perceber...


Fôlego... Foi o que me faltou ao ler.
Grandiosa mesmo...
Esplendorosas vocês duas.
Uma, a Mestra a outra, a Sábia, e eu pude me alimentar disso...


Twivialidades

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