Minha peça teatral anterior, A Serpente, me fez aprender muito, como não poderia deixar de ser. Vivi muitas surpresas durante aquele tempo, mas, sem dúvidas, a minha percepção sobre as pessoas a minha volta se modificou para sempre. Máscaras e preconceitos, meus e dos outros, foram expostos e varridos diante de uma natural hediondez latente e latejante, a de Nelson e a minha. Mitos devastados e amizades inestimáveis foram as recompensas que meu Deus, o Tempo, me deixou. Dentre estes caros seres que adentraram o meu mundo, há um que não cansa de me surpreender. Sempre lhe pergunto, Hamilton, você é de verdade? Não sou a única a ficar estupefata diante da beleza desta criatura. Hamilton é de uma pureza nefanda, de uma bondade sacrílega, ao mesmo tempo pai e amante, um sátiro com asas de borboleta. Conhecê-lo é mais do que um prêmio, é uma necessidade, não sei como vivi sem ele até então. Dele sempre sai algo importante de ser ouvido, seu conhecimento e experiência são infinitos. No panteão de pessoas divinamente imperfeitas que estiveram comigo para contar a história da princesa Salomé, ele foi, apenas, essencial. Em muitos momentos foi cúmplice, em muitos outros, referência para aquele mundo. Se Oscar Wilde fala comigo, imagine que tipo de relação tem Hamilton... Sua palavra para conceituar a indumentária que criou para o espetáculo, traduz tão mais, diz tanto sobre tudo e todos, que simplesmente me rendo a um turbilhão tão preciso, seu texto no programa do espetáculo:
"Perversão: esta é a palavra que permeou todo o trabalho e tornou-se o mote para o figurino."
Hamilton Lima está agora expondo a sua perversão no Teatro Gamboa Nova. Chama-se aGOSTO DO FREGUÊS. Não preciso dizer mais nada.
O Teatro Gamboa Nova fica na Rua Gamboa de Cima, 3, Aflitos, Salvador-BA - Informações: (71) 3329-2418 - A exposição fica durante todo o mês de Agosto.
“...Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos...”
Caio Fernando Abreu, Terra do Coração
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E Hamilton ainda me trouxe o presente de inserir definitivamente Caio Fernando Abreu na minha vida perversa e pervertida...

10 Agosto, 2008 01:01
Minha querida, nem sei o que dizer... vc me deixou muito mais que emocionado...
Fico com Caio:
... “Fico quieto. Primeiro que paixão deve ser coisa discreta, calada, centrada. Se você começa a espalhar aos sete ventos, cráu, dá errado. Isso porque ao contar a gente tem a tendência a, digamos, “embonitar “ a coisa, e portanto distanciar-se dela, apaixonando-se mais pelo supor-se apaixonado do que pelo objeto da paixão propriamente dito. Sei que é complicado, mas contar falsifica, é isso que eu quero dizer – e pensando mais longe, por isso mesmo literatura é sempre fraude. Quanto mais não-dita, melhor a paixão. Melhor claro, em certo sentido que significa também o pior: as mais nobres paixões são também as mais cadelas, como aquelas que enlouqueceram Adele H. , levaram Oscar Wilde para a prisão ou fizeram a divina Vera Ficher ser queimada feito Joana D’Darc por não ser uma funcionária pública exemplar. “
Caio F. Abreu - A Cidade dos Entertons
Beijos mil!
11 Agosto, 2008 08:53
Eu, de minha parte, acabei me comprometendo deveras com esse negócio de me deleitar com Hamilton... uma vez cheguei a declarar que só compareceria às reuniões de Salomé para as quais ele também fosse convocado... derramamentos plenamente compatíveis com o arrebatado encantamento que ele nos causa... não se passa incólume por ele!
Mil, é uma honra partilhar tua sabedoria de calar e dizer com e sem imagens, gestos, palavras e/ou lufadas de dócil perversão.
18 Agosto, 2008 04:25
Amandita, só metade do texto aparece na tela principal do blog (tanto com o Firefox quanto com o I. Explorer), e só acontece com essa postagem!
Apesar disso, consegui ler tudo aqui pela página de comentários - cliquei aí em cima em "mostrar postagem original" e as palavra que faltavam se revelaram.
Devo dizer que também tenho o Hamilton como um achado pessoal; classifico-o assim desde o momento em que "recitou" (palavra parca para expressar toda a interpretação que ele deu ao ato) Anotações Sobre um Amor Urbano do Caio F. Abreu no primeiro encontro social de Salomé que participei; desde a hora que derramei a primeira lágrima naquele sofá por sentir sua paixão em falar através do/pelo/de teatro; desde o momento que me mostrou, ali mesmo, o quanto ele já havia caminhado.
Estou curioso, muito mesmo, para saber onde mais ele pode ir.
Parece infinito!...
18 Agosto, 2008 15:33
Ótima dica, vou conferir o trabalho do
(maravilhoso) Hamilton!! Grande abraço
e ótima semana.
ALBERGUE MENTAL
http://caioalbergue.blogspot.com
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