As Julianas da minha vida
Quarta-feira, Abril 25, 2007Tenho sorte. Tenho três. Uma tem gosto de sonho. A outra é Cacilda Becker. Outra é Deus. As três são mito, e mais reais que café amargo numa manhã chuviscada. As três têm cores almodovarianas e prosa de Vinícius. As três são céu e inferno, sempre servidas quentes e condimentadas. As três terão culpa eterna em quem sou e a elas deverei mil almas até o fim dos dias. As três são do cheiro do chão de madeira dos tablados da arte. A elas me dei gota por gota sem seu consentimento e não me aceito de volta, nem por todos os sóis do meio-dia.
Uma me puxou de um abismo com uma risada que ainda hoje, eras depois, ainda me tira de lá. Está longe continentalmente, mas tão perto que expreme meu coração. Juliana Dócio, a menina-sorriso, a pioneira do sentir, a amizade verdadeira, a que riu e chorou comigo na chuva, em todas as estações, sobretudo na primavera, onde sempre reinava. Jamais conheci outro alguém que em cada ponta da galáxia é conhecido apenas por uma palavra: Sorriso. O que a vida fez conosco, amiga-irmã? Viramos partículas de ciberespaço? Como te quero aqui, com seus generosos seios pra deitar. Apenas isso. Deitar em seu colo, ouvir seu coração e lembrar que o passado amanhece com gosto de pão doce. Sorriso. Foi você que vi no palco quando meu coração deu cambalhota e fez o pacto com Dionísio. Sabe o que estou fazendo agora? Sorrindo. E não é sonho. Obrigada por devolver meu coração.
A segunda Juliana já me fez ter vontade de ajoelhar em reverência. Juliana do olhar escarlate, Juliana da voz de trovão. Juliana dos lábios-pássaro. Juliana que fala sem dizer palavra. Juliana do terror e da vida. Juliana do sim e do não. Juliana, pra mim, divindade. Ergam-se altares porque ela é humana. Sacra e profana como uma aroeira ou um jequitibá. Árvore firme, grande e frondosa, imponente e aguerrida, mas repleta de pequenas e macias flores que fazem um tapete de claros mimos ao seu redor. Quem não te conhece nunca saberá da suavidade que um vendaval pode ter. Obrigada pelo poder e coragem de segurar os espelhos quando todos são nada. Você inventou a coragem. Obrigada por sempre estar lá. Obrigada por ser mulher. Te ouço, professora Juliana Ferrari. Mestra. Te ouço com todos os meus poros, com todos os meus segundos. Te ouço até por quando erras. E porque erra, torna-se Deusa do meu panteão.
E há aquela que é fome. Aquela que devora um mundo por dia. Aquela que é muitas e é única. Aquela que tem a doçura do sal e a ferocidade do açúcar. Sei que quem te leva pela mão é a lealdade, e que a generosidade fez do seu coração um pátio. Sei que cada fio do teu longo cabelo é um raio de sol, e que, por isso, qualquer desavisado se sente aconchegado perto de ti. Sei da tua força, Juliana Bebé, até quando está encolhida no chão, chorando os desvendamentos de um mundo que ainda não te conhece. E sei disso te conhecendo há uma única esquina. Por ti, entendi que as estrelas reencarnam porque te vejo Ela, a Atriz, mesmo que ainda sejam estes os teus primeiros passos. A você só posso agradecer por ter me permitido te conhecer e me assombrar ao constatar que é tudo verdade. Que você é de verdade. Que você é verdade.
Czarinas em minha vida, nossas almas conversam demasiado e é o que importa. Só peço que vocês me concedam um dia qualquer para, quem sabe juntas as três ou não, chorar em um abraço de lágrimas ou em muitos. Pois essa não é uma carta de adeus. É só um primeiro tijolinho amarelo. Já ouvi dizer que Juliana é "a cheia de juventude". Ouvi também "aquela que traz a luz". Vocês são as julianas da minha vida.
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"E nossa história, não estará, pelo avesso assim, sem final feliz. Teremos coisas bonitas pra contar. E até lá, vamos viver. Temos muito ainda por fazer. Não olhe pra tras, apenas começamos. O mundo começa agora. Apenas começamos". (Legião Urbana)
Sangue
Domingo, Abril 22, 2007
E chorei novamente todas as lágrimas. As lágrimas do passado e as do amanhecer. Chorei um gosto de sal e ácido pro coração perceber que ainda está lá. E pra cabeça entender que nessa relação nunca mandará. Chorei pra entender que tudo habita o mesmo lugar. Que não há passado bem resolvido nessa esfera de emoções que se obrigam a se abrigar sobre pesadas cortinas de veludo. O que o fogo não pode fazer com cortinas? O que o fogo não pode fazer com a razão? O que o fogo não pode fazer?
E entender que todos os rios, córregos, cachoeiras e lagos da minha hidrografia são de lava fervente. E se derramam em terra inóspita, cortando solos que jamais serão os mesmos, desvendando formas, criando tempestades de pó e desejo. O que sai do vulcão é um beijo. A terra encontra seu quinhão de fogo pra se transformar no que há de mais fértil. Como a mulher que tem os seios roçados pelo ardor de outra pele e sente as pernas se abrirem, e seu cheiro exala a necessidade de receber vida.
E quem sou eu pra brigar com a carne das palavras? Quem sou eu pra afrontar a memória do tempo? Sou só pequena, tocada pelas Musas em meio a uma tempestade de Zeus, que com seus raios brinca com uma mortal mais uma vez. O Deus dos trovões saiu de seus domínios quando sentiu meu cheiro de fertilidade. E me encantou em uma noite com três sóis que durou a eternidade de uma gota que atinge o centro de uma flor. Fez o que quis. Derramou suas gotas quentes entre meus seios incitados e me mandou ser filha do Deus do Vinho.
E teimo em correr por outros caminhos. Teimo em fugir da sina de ser dos que acabam com o juízo de um Deus sem nome, sem rosto, sentado em um palácio desterrado, sem divindade, sem seiva, sem vida. Teimo em querer ser estátua de sal, por não olhar, e não o contrário. Teimo em tirar meu coração e guardar em um pote de chumbo, pra que nem os dotados de poder sobre-humano resgatem. Teimo em não olhar pra trás.
E quando se abre uma fresta, uma única fissura na couraça tão bem moldada, aquele único pedaço de luz escarlate banha a minha manhã e torna-a a dose de noite que sou viciada em beber. E me embriago daquela noite até respirar aos pedaços. A pergunta, por fim, encontra sua resposta. Eu ainda sei sentir. Ainda sou o brilho que faz sombra nas árvores. Ainda sou inteira e cheia, indo pra onde quem anda me leva.
E então não há mais nada fazer. Só chorar. Chorar o sangue da carne de sonhos que é feito o meu corpo. Chorar por ser filha do desespero e mãe da esperança. Chorar por ser menina que come com as mãos e passa a língua nos dedos. Chorar por ser mulher que usa a cortina de veludo da razão pra vestir-se sensual. E que vibra quando as labaredas consomem o tecido. E que então, ri da única saída que seu veneno lhe mostra. E irreversivelmente, sofregamente, abre as pernas para gozar o entardecer.
Imagem [J.W. Waterhouse: Circe Invidiosa, 1892]
Helena
Quarta-feira, Abril 18, 2007Destruidora de uma nação,
Musa de inspiração,
Mostra teu sorriso aos nefastos destinos,
E o maior grito torna-se melífluo hino.
O ar não existe sem teu ímpeto,
Desafie os Deuses,
Subverta os sentidos,
E abrirás o mais impérvio caminho.
Perto de ti as estações são nuas,
De nada vale o cair da folha,
O florejar da árvore,
O esfriar do entardecer.
Os ventos só sopram teu nome,
Helena, Helena, Helena,
Da Tróia do coração dos homens,
Do mundo que só é por ti,
Da essência arvoada do querer.
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Originalmente publicado no site Overmundo.
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Uma vez quis ser uma Helena, mudar meu nome, chamar-me assim. Nada sabia ainda sobre Tróia, Mitologia, Grécia e a mulher mais desejada de sua era.
Uma vez, depois de muito navegar, conheci uma Helena. Paradoxal, um olhar de quem vai se partir em pedaços. Parece. Sua complexidade, seu poder, sua culpa, a fizeram minha musa. Em mim ela já alcançou a imortalidade, agora quero vê-la tornar-se maior do que sua própria vida.
Esse poema é sobre essa Helena, e sobre aquela Helena, e sobre as duas juntas, e sobre todas elas.
O ocidente só existe porque existiu uma Helena. O ocidente só existe porque existe a mulher.
Achado de Hoje (Charles Chaplin)
Sábado, Abril 14, 2007"Se você tivesse acreditado nas minhas brincadeiras de dizer verdades, teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando. Sempre falei como palhaço, mas nunca duvidei da seriedade da platéia que me ouvia."
Isso tudo é porque não posso dizer teu nome
Segunda-feira, Abril 09, 2007
Porque não posso fazer reverberar aos quatro cantos do mundo o regozijo do incomensurável desejo que tenho por ti. Isso tudo é porque a minha sina é apenas sentir meus pulmões se cortarem em segundos de morte quando teu olhar me persegue e nada posso fazer. Nada posso além de ouvir o farfalhar da minha vida em frangalhos por não poder te tomar nos meus braços e delirar no seu pescoço. Ah, o seu pescoço... Salomão não sabia o que dizia quando falava de Sulamita. Ele não te conhecia. Seria cegado pela intensidade do brilhar dos seus olhos. A sabedoria nem existiria. Apenas o desespero pelo toque dos seus seios, vibrantes, rijos. Apenas a aflição do tempero da sua boca, macia, molhada. Apenas a cólera de tomar seu quadril, ondulante, obsceno. Apenas o salivar pela textura plena do teu sexo, aberto, exalante. Mas não ouso dizer esse nome que me devora, me atormenta, me engole. Porque você é o fluxo do desejo incontrolável da lascívia, e em tua pele brotam os sentidos da luxúria, e quando a sinto, só quero ser do mundo, só quero ser o mundo, só quero ser. Só quero ter. Só quero o seu suspiro de prazer supremo, o suspiro da pequena saída do corpo, o suspiro do orgasmo renitente, do tremeluzir do suor exposto às estrelas de uma noite quente. E então o mundo caberia em teu nome. Você caberia em mim. Eu caberia em você. ______________________________________________________________
Embora ficção, a mulher existe, assim como o desejo. Está na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia. Nem imagina.
Mundo Fálico
Domingo, Abril 08, 2007Este fim de semana assisti a 300 de Esparta, de Zack Snyder, baseado na graphic novel de Frank Miller. Registro aqui algumas impressões, extremamente parciais e de primeira hora, que emergiram após a sessão de cinema.
O visual é acachapante. Há um efeito utilizado algumas vezes, que insere no espectador a dimensão da tensão, como o que se sente quando estamos em um carro há mil por hora que freia de repente. O carro pára, mas nós continuamos. A sensação (no filme) é maravilhosa. A respiração é suspensa, o diretor nos tem nas mãos. As matizes são impressionantes. O filme é quente, mesmo quando usa cores frias, o suor escorre pela tela.
Não dá pra não falar de Rodrigo Santoro. Um "deus na terra", o Rei Xerxes. Para mim que gosto muito da mitologia antiga, principalmente a grega e a bíblica, foi delirante ver Xerxes encarnado, com toda a majestade que a figura exigia. Santoro está muito bem, acima dos mortais realmente, acima da virilidade sufocante dos demais personagens, um ser extra-terreno, erótico, soberbo.
Adoro Frank Miller, adorei Sin City, e fico feliz que mais esta adaptação da sua obra tenha tanta qualidade e intensidade. Já disse outras vezes que, o que me fascina no cinema é a possibilidade de penetrar em outra realidade por completo. Nisto, este filme só peca no final. Acho que faltou apoteose na última cena especificamente, mas não tira o valor da película. Que venham outros Frank Miller's.
Ah, falei a palavra que faltava... "penetrar". A história é deveras "penetrante". Como um imenso falo. No filme a testosterona sai aos borbotões. É o mundo-homem, o mundo do "vamos bater a cabeça na parede". É claro, como diz a minha querida professora Juliana Ferrari, essa é a encenação do masculino. Daquele masculino que chega a ser perverso de tão obtuso. Onde os homens são super-super-homens com suas lanças enooooormes. Pra mim, o maior exemplo disso é que o único personagem espartano que comete um erro no filme (o vilão não vale!) é uma mulher. E só recupera a sua "honra" - início de spoiler - depois de enfiar uma enooooooooooorme espada (um falo?) na barriga do traidor - fim do spoiler. Ou alguém terá coragem de dizer que o que ela fez foi pura estratégia?
Enfim, para os habitantes do universo masculino de Marte o filme é espetacular. Já para as mulheres, bem, depende da posição... literalmente. Ou não.
300 de Esparta, de Zack Snyder, baseado na graphic novel de Frank Miller.Na imagem em questão, os meninos espartanos brincam de "garrafão" com os coleguinhas persas.
Achado de Hoje (esse é meu)
Domingo, Abril 08, 2007Não subestimar as pessoas é sinônimo de inteligência.
