
E chorei novamente todas as lágrimas. As lágrimas do passado e as do amanhecer. Chorei um gosto de sal e ácido pro coração perceber que ainda está lá. E pra cabeça entender que nessa relação nunca mandará. Chorei pra entender que tudo habita o mesmo lugar. Que não há passado bem resolvido nessa esfera de emoções que se obrigam a se abrigar sobre pesadas cortinas de veludo. O que o fogo não pode fazer com cortinas? O que o fogo não pode fazer com a razão? O que o fogo não pode fazer?
E entender que todos os rios, córregos, cachoeiras e lagos da minha hidrografia são de lava fervente. E se derramam em terra inóspita, cortando solos que jamais serão os mesmos, desvendando formas, criando tempestades de pó e desejo. O que sai do vulcão é um beijo. A terra encontra seu quinhão de fogo pra se transformar no que há de mais fértil. Como a mulher que tem os seios roçados pelo ardor de outra pele e sente as pernas se abrirem, e seu cheiro exala a necessidade de receber vida.
E quem sou eu pra brigar com a carne das palavras? Quem sou eu pra afrontar a memória do tempo? Sou só pequena, tocada pelas Musas em meio a uma tempestade de Zeus, que com seus raios brinca com uma mortal mais uma vez. O Deus dos trovões saiu de seus domínios quando sentiu meu cheiro de fertilidade. E me encantou em uma noite com três sóis que durou a eternidade de uma gota que atinge o centro de uma flor. Fez o que quis. Derramou suas gotas quentes entre meus seios incitados e me mandou ser filha do Deus do Vinho.
E teimo em correr por outros caminhos. Teimo em fugir da sina de ser dos que acabam com o juízo de um Deus sem nome, sem rosto, sentado em um palácio desterrado, sem divindade, sem seiva, sem vida. Teimo em querer ser estátua de sal, por não olhar, e não o contrário. Teimo em tirar meu coração e guardar em um pote de chumbo, pra que nem os dotados de poder sobre-humano resgatem. Teimo em não olhar pra trás.
E quando se abre uma fresta, uma única fissura na couraça tão bem moldada, aquele único pedaço de luz escarlate banha a minha manhã e torna-a a dose de noite que sou viciada em beber. E me embriago daquela noite até respirar aos pedaços. A pergunta, por fim, encontra sua resposta. Eu ainda sei sentir. Ainda sou o brilho que faz sombra nas árvores. Ainda sou inteira e cheia, indo pra onde quem anda me leva.
E então não há mais nada fazer. Só chorar. Chorar o sangue da carne de sonhos que é feito o meu corpo. Chorar por ser filha do desespero e mãe da esperança. Chorar por ser menina que come com as mãos e passa a língua nos dedos. Chorar por ser mulher que usa a cortina de veludo da razão pra vestir-se sensual. E que vibra quando as labaredas consomem o tecido. E que então, ri da única saída que seu veneno lhe mostra. E irreversivelmente, sofregamente, abre as pernas para gozar o entardecer.
Imagem [J.W. Waterhouse: Circe Invidiosa, 1892]
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