Caleidoscópio do Éden
Quero que a verdade me consuma até o último gole

Sobre um Deus e seus caprichos

Domingo, Dezembro 03, 2006

Não, eu não nasci assim. Acho. Na verdade comecei sonhando ser jornalista. É, era a minha obsessão em jogar verdades nas caras dos outros dando seus primeiros sinais de vida. Jornalismo verdade? Verdade? Doce inocência... Daí veio o surto de Comunicação Social. Estava tudo pronto, o destino traçado, abençoado por famílias e famílias. Até a saída para o mundo das Letras Vernáculas... quase lá! Do escrever mesmo, minha verdadeira alma, pude aprender bem pouco num lugar direitista demais como aquele.

Mas, ele sempre esteve lá. Correndo por fora e observando calmamente. Pronto pra me devorar, não sem antes me aconchegar em seus braços macios e compreensivos. O mais sedutor dos Deuses. Encontrou sua deixa quando finalmente me embeveci de Shakespeare e admiti que odeio os cânones. Ah... o paradoxo é sempre a senha... E eu sou a emergência encarnada. Minha necessidade é a do aqui e agora, do carnal, do absoluto sentir.

Ao dar por mim, já era tarde. Já era Dele, fui convidada a ser prisioneira do reino do quebrar em pedaços. É Ele quem faz as escolhas, no final das contas. É Ele, o espelho de mil faces, sempre espelho, sempre faces. Nunca o todo, nunca o absoluto, mas sempre sorrindo a cada escolha que faço, deliciando-se com o que deixo pra trás, sempre interessado no meu prosseguir. E eu, ainda tão boba...

Como vivi tanto tempo em um mundo sem saber da existência de Artaud, Ionesco, Beckett, Arrabal, Nelson??? Como vivi em um mundo sem poder transformar palavras em corpo? Pelo menos agora sei o quando ainda há a descobrir. Parei de tentar não ser tola, parei de tentar suprimir meu coração, parei de tentar desviar os meus olhos da perda de fôlego da primeira vez.

Estou a um ano do final deste curso, há um ano atrás montei meu primeiro Shakespeare, em um dos processos mais caóticos que já conheci. Mas parece que foram dez anos. Essa sensação de ser absolutamente preenchida pelo conhecimento e perceber que ainda há muito, mas muito lugar para mais é invariavelmente surpreendente.

Como pude viver em um mundo sem conhecer Juliana Ferrari, Cleise Mendes, Maurício Pedrosa, Renata Cardoso, Marcos Barbosa, Fernanda Paquelet, Eduardo Tudella, Glaucio Machado, Luiz Marfuz?

Como eu pude sonhar não pertencer ao teatro???

"Se eu não acreditasse nas imagens místicas do meu coração, não poderia conseguir dar-lhes vida." (Artaud)

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