Caleidoscópio do Éden
Quero que a verdade me consuma até o último gole

Avesso Grito

Sábado, Setembro 03, 2005

Vazio. É só o que sinto. Um vazio enorme e ensurdecedor. Estou atracada em um cais há algum tempo que não sei mais contar, e há aquela neblina de mentira, ilusão, hipocrisia, falsidade, que vem de um lugar que me é familiar, eu apuro a vista mas não consigo enxergar sua origem, e ela continua, espessa, densa, fria. E se vier aquele velho navio, eu vou saber que está lá? Vou conseguir enxergar com a vista ardendo de cansaço de tempos sem olhar pra qualquer lugar com nitidez? E vai chegar? Será que vai?

Eu tenho tanta coisa pra contar que não sei mas como começar. É por isso que vivo ausente, as pessoas nem me visitam mais porque não acreditam na novidade, e eu fico desesperada, a roer unhas, a ranger dentes, querendo, querendo, querendo... Mas não vai, não sai, é muito, e esse mundo cibernético não tem plug in para gritos, berros e semelhantes. E então eu continuo aqui, espessa, densa, fria, batendo queixo mesmo, com garganta seca e olhos molhados, em frente ao meu maior confidente e incapaz de falar.

A quem eu estou enganando? Eu quero o divórcio! Já existe o divórcio de partes de si mesmo? Pois é esse que eu quero, pago quanto for, litigiosamente se necessário. Mas não me quero mais, não assim, não nessa inércia emocional, sorrindo pra quem me sorri, fazendo esforço mental para que o telefone não toque, pra que ninguém apareça, trancafiando meu coração com chaves dos sete pecados capitais, vestindo o manto da culpa e da comiseração.

E ouvindo meu próprio choro que não sai, fica só aos berros dentro de mim. Até quando me usarei? Até quando treparei para dar vasão ao ódio? Até quando serei essa mercadora de conselhos, fazendo amuletos da imagem que fazem de mim? Quando começarei a ouvir aquilo que digo? Quando é que pararei de dizer sim?

E eu sei do que preciso. Sei sim. Preciso de toque. Aquele toque com o olhar, aquele que nos despe, no corpo e na alma, aquele que nos estremece ao nos desnudar, aquele que nos arde e nos gela, aquele que é um remédio doce-amargo, aquele que é e apenas é. Aquele que tem a cor dessa página. Aquele que me fará ter certeza de que estou sendo ouvida.

Eu preciso de gente. Preciso da sinceridade dos pensamentos, da honestidade de sentimentos, sem meias verdades, sem socializações, sem censuras, sem normas internacionais, sem filosofias baratas, sem intelectualizações da Siciliano, sem pseudo-altruísmo, sem pedidos de troca, sem paternalismo, sem demônios familiares, sem obrigações. Só gente.

Já transei gostoso, já comi chocolate, já trabalhei, já ouvi Beatles, já acendi as velas. Preciso é de comida pra alma. Preciso é voltar a sentir. Preciso amar, pra não sentir essa solidão de maracanã cheio. Mesmo sabendo que, no fundo, isso também passará, não quero ouvir de mim que já é tarde demais. Eu sou demasiadamente verbal. Só espero que a minha voz alcance o outro lado do porto, pra que eu possa ouvir o som do velho navio. Porque eu ainda quero falar. Ainda.


O que me importa
(Tim Maia)

O que me importa
seu carinho agora
Se é muito tarde
para amar você
O que me importa
se você me adora
Se já não há razão
para lhe querer
O que me importa
ver você sofrer assim
Se quando eu lhe quis
você nem mesmo soube
dar amor
O que me importa
ver você chorando
Se tantas vezes
eu chorei também
O que me importa
sua voz chamando
Se pra você jamais
eu fui alguém
O que me importa
essa tristeza em seu olhar
Se o meu olhar
tem mais tristezas
pra chorar
que o seu
O que me importa
ver você tão triste
Se triste fui
e você nem ligou
O que me importa
o seu carinho agora
Se para mim
a vida terminou.
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