Sobre ela ter morrido anteontem
Sábado, Janeiro 23, 2010Para um
E você acha mesmo que sonhar é bom? Ela sabe que estará só para sempre. Quantas vezes teve que acessar o reinício? Quantas vezes entregou o açoite em suas mãos? Mas não falemos tanto assim de dor. Poderíamos falar sobre quantas vezes ela te entregou a alma, te oferecendo a pequena morte de pernas abertas e respiração musicada, crendo em todo o poder da sua saliva. Só a você ela chamou de cavaleiro. Mostrou seu mundo utópico e seus piores pesadelos. Aquelas lágrimas, cada gota, tinham para você um sabor diferente, o sabor da verdade. Disse que cuidasse de seu coração, que o protegesse até mesmo dela. Destrancafiou todos os medos, escancarou todas as portas e ofereceu mais que um contrato, um pacto, uma aliança. Ofereceu mais que tudo. Mesmo com todos os avisos que lhe dei. Agora ela sabe, é claro. Sua existência apenas adiou um pouco o inevitável. Pois cedo ou tarde, abraçamos o nosso destino. Então vá agora, mas cuidado para não deixar cair nada dos seus bolsos abarrotados.
Para uma
Quando será que faremos aquela viagem? Eu respondo que talvez o nunca esteja mais próximo. Já faz tempo que ela sabe que não está louca. É você a covarde. Do que mais poderiam chamar alguém sobre quem todos sabem a verdade, menos a própria que sente? Quando em transe, o que é recorrente, você clama o desejo aos berros. Nenhuma cruz é capaz de esconder o óbvio. Pois se agarre a ela e tenha certeza de sentir a dor quando baterem os pregos. Porque agora é a mim que ela pertence, e não permitirei que algúem que ainda não adentrou o mais poderoso dos sentidos a veja de joelhos. Nunca mais.
Para essa
Deixe, por favor, deixe que as lágrimas se derramem. Não me importo mais com a cor que possam ter. Eu não quero mais morrer de novo. Mesmo sabendo que este querer é inútil. Eu também posso cansar. Então, por favor, me cubra logo com este manto escarlate que me aquece do frio. Eu não quero mais sentir frio. Eu não quero mais estar só.
A cidade onde os zangões beijam as flores
Sábado, Janeiro 16, 2010
Minha irmã me disse assim. ‘Por que você não lança o livro? Pense só no singelo título: Minha Adolescência em Ilhéus. Os inocentes pensarão se tratar das experiências nostálgicas de uma jovenzinha. Nem imaginam que vão se deparar com o inferno.’ O inferno ela disse. Pode parecer só mais um sinônimo para adolescência. Mas no meu caso está mais para uma visão medieval da tortura absoluta. E no entanto estou viva ainda para voltar aqui. Oh, sim. Escrevo este texto direto da fonte.Vendo o mar que há muito tempo atrás se tornou vermelho pra mim, através de uma das varandas do Solar da Lua, a casa do meu pai. E constatando o óbvio. O mundo não cansa de dar voltas e voltas e jamais passamos duas vezes pelo mesmo lugar. Embora a rascante lembrança ainda não tenha dito adeus, eu tive força pra virar a página, e continuar a escrita. Agora há outras perspectivas, como enxergar quem faz o trabalho de tornar fértil as árvores deste lugar. Há o que tornou-se, ou já nasceu, inevitável. Agora eu abraço a noite como meu maior abrigo e aceito a sede, para doer menos. Respiro no ar a umidade doce dos séculos, mas não me amarrarei mais a alecrins, macelas e alfazemas. Agora eu sou só daquele jasmim que exala a luz da lua. E talvez este seja um texto-epitáfio, impreterível para quem quer prosseguir. Ninguém verá mais. O brilho lancinante de mais uma menina trancafiada em um quadro agora fluirá como um antídoto ao antídoto de um veneno qualquer. Sem heranças, declaro aqui no avesso do jardim, eu vou lutar de dentro. Despedaço aqueles que me querem bem sem ao menos me conhecer. Porque sei que não sou má. Ainda. Então, que o círculo se feche para que se abra o espiral. Só tenho o infinito e o eterno para me salvar. Que assim seja. E que assim se faça.
E essa sede que nunca cessa
Segunda-feira, Janeiro 11, 2010Precisava haver um motivo para que a urgência de Artaud me contaminasse, é claro. Essa é a base da equação quando o diabo bate à sua porta. É simples. Os olhos que me mostram o mundo são olhos que já viram a morte muitas vezes. E quando se vê tão de perto, muitas perspectivas mudam. Outras desaparecem. Primeiro eu a procurei, de enúmeras formas. Em algum momento, nos encontraríamos. Ela não me escolheu pelo seu direto viés. Não quis que eu fosse a protagonista, preferiu me ver como platéia. E nada pode ser mais cruel do que contemplá-la. Vê-la em toda a sua força, constatar o fim dos encontros futuros. A maior das mortes é a morte do encontro. É o não poder mais. Nunca mais. Pior que morrer por inteiro é despedaçar-se um pouquinho a cada dia. E comigo foi assim.
Então, tenho com ela uma íntima relação. Me foi tomado o amor, uma, duas, três vezes. Três amigos. Uma menina de olhos azuis e sorriso vermelho, eu estava então com 13 anos. Ela, morta com suas próprias mãos, ao tomar um veneno preparado com a certeza de quem se despede do desespero. Seis meses depois, meu melhor poeta. Assassinado pelo próprio irmão em sua sanha de me possuir a qualquer custo. E aos 19, meu primeiro amor. Tragado pela chuva na cidade onde renasci tantas vezes. E eu fui com cada um deles. Não pude evitar a dor. Por ser ainda tão jovem, as marcas foram demasiadamente profundas. Incuráveis. Carreguei por anos um medo de amar novamente. Medo de ter amigos. Medo de me entregar. Quando finalmente deixei a companhia da morte pra me comprometer com a vida, vendo os olhos de farol de meu filho pela primeira vez, o medo aumentou. Fiz então de meu jardim uma prisão espinhosa, parecia que nem a sombra da lua me faria companhia. Eu só queria estar segura.
Foi o Teatro que adentrou sem reservas ou pedidos aquilo que já era uma fortaleza e arrancou pela raiz qualquer certeza de gente velha que outrora habitou meu jovem coração. O desejo de desejar foi, pra mim, a cura. Chorei rios para lavar o espírito ao ler pela primeira vez sobre alguém que entendia a fúria da vida. ‘Apetite de vida cego’, ele disse. Eu entendo. Há na vida aquilo que emoldura a sua alma de artista. O flerte com a morte me fez ter esses olhos, e não outros. Tudo se completa, se encaixa, é tudo necessário, inevitável. Eu sei. Não há em mim uma busca de redenção ou os princípios religiosos de salvar, garantir, proteger. Só o avesso. Só a certeza de que o curso é pequeno e o encontro, necessário.
Eu me excito ao ver o aqui e agora, a cada segundo que ainda me é concedido. Se há um nirvana depois disso, se há outra vida, não me interessa. Eu não quero perder nem um segundo deste encantamento. Eu quero escrever minha história no coração de cada um com uma adaga afiada, ouvindo os gemidos da dor que também é prazer, que sempre é. Já estou muito distante daquela que perdeu seus amores e protegeu sua cria. Agora sou outra, sou diversas aliás. Mas sou inteira. Nada mais de pedacinhos meus se soltando por aí. E abraço deleitada o sacerdócio da arte cênica. Aqueles que estão comigo devem saber, não faço concessões à monotonia. Que morra tudo o que é tépido e seguro e que cheira a tutorias cheios de termos e conceitos de quem já percorreu seu próprio caminho. Percorrerei o meu, ouvindo rock’n roll em francês de for o caso, e olhando nos olhos com a certeza da urgência de cada descoberta. É pra isso que estou aqui.
Achado de hoje (Adelice Souza):
Domingo, Janeiro 10, 2010“Sonho é uma das coisas de mais importância nesta vida.”
Nininha na peça teatral Jeremias, Profeta da Chuva, de Adelice Souza.
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Na foto, eu e Adelice Souza, preparando um sonho para o Domingo no TCA, que aconteceu hoje.
Dia 31
Quinta-feira, Dezembro 31, 2009
Que ainda haja a noite.
Que ainda haja o sol.
Que ainda haja o desejo de desejar.
E que ainda haja a crueldade para amanhecer e enfrentar.
Achado de hoje (Arthur Marcus, 8 anos):
Sexta-feira, Dezembro 25, 2009
“A melhor parte de viver é comer.”
(Arthur Marcus, vislumbrando a ceia de Natal)
A alegria ácida
Quarta-feira, Dezembro 23, 2009
Muito fácil ser amigo de alguém quando a vida só diz sim, quando o encontro é magicamente perfeito, quando tudo está no seu devido lugar. Difícil é dizer sim quando aquela realidade cinza bate à porta e lembra, também há imperfeição aqui. Porque amigos não são super-heróis, nem foram educados na Mansão Foster. Amigos também pisam no buraco negro que se estende diariamente diante de nós quando abrimos a porta para um novo dia. E como tudo o que é humanamente [im]perfeito, também há ranhuras e rasgos nesse tecitura. Não? Então chamem o taumaturgo que nunca chorou quando ouviu aquele que ama atravessá-lo como quem caminha por uma tênue névoa. Porque eu choro, repudiando minha eterna armadura de aço, que esconde essa borboleta de asas frágeis. Às vezes nem mesmo eu me enxergo com tanto metal tramado e tantas correntes e fechaduras e lacres e segredos. Mas eu sempre sei por quais frestas enxergar, e também por isso é que não sou imune à mágoa. Escuto coisas que queria empurrar de volta, fazer digerir antes de engolir, apagar antes de ver. Pode ser que seja assim que se merça o tamanho do elo, talvez pensando em quanto tempo a tempestade fica. Se assim for, então eu sei o quanto amo esse eternamente inacabado repositório de sonhos que chamam amizade, com seus poucos e grandiosos nomes. Se sei o quanto sou difícil, a viciada-em-conflitos que sou, o que seria de mim sem meus pequenos diabinhos? Declaro aqui, em alto e bom som, que leão algum que exista em alguém vai devorar a pequena gata que existe em mim e que quer colo sempre, que quer um afago eterno, mesmo que não seja o certo, mesmo que não seja o lúcido e racional ato possível. Já tenho o mundo inteiro pra me dizer no que erro. Eu quero e gosto é de ligar o foda-se em conjunto, ‘de galera’. Essa felina aqui não se furtará de estar disponível nas madrugadas para acolher os doces-enjoativos, ou os vagabundos-corações-inveterados, ou os eternos-dependentes, ou os viciados-em-alcançar-o-vento-da-vaidade. Como gata, não peço casa, nem cama, nem comida, nem sobrenome. Só peço um cafuné. Ou talvez, se a lua estiver cheia, uma lambida.
Que venha o verão!
Segunda-feira, Dezembro 21, 2009
Eu sou uma garota de praia. Sim, eu sou. Nascida em Botafogo, na beira daquele mar que rebenta, respirando o Rio de Janeiro desde o primeiro choro, o que mais eu seria? Saí da cidade maravilhosa pra ter o mar como janela no sul da Bahia. Adulta, me envolvi irreversivelmente com os céus da praia que abriga um castelo. Agora cá estou eu na cidade dos mil sóis. O verão me inspira.
E neste verão está conjurado um muito esperado futuro. O calor anuncia o ano par. Ano de pegar minha prancha, há tempos guardada a sete chaves no meio peito e me aceitar destemida diante de imensas ondas. Talvez este seja o verão dos meus sonhos, o verão dos 30. O tempo me diz sim como eco do meu próprio coração.
E eu me entrego então, a esta estação e a toda a verdade da luz desse sol inundante. Me entrego ao Calor e ao Tempo, com os pés descalços do medo e na pele tudo o que aprendi de meus pais, meus demônios, meus filósofos, meus amigos, meus professores, meus inimigos, meus amores, meus eus. Que se abram as portas e as janelas. Que venham os mestres e os sedentos. Que venham as tempestades de fim de tarde! Que venha o verão!
Artaud vai à praia
Segunda-feira, Dezembro 14, 2009
Foi em Mangue Seco, extremo norte da Bahia, em Setembro deste ano. Entre o protetor solar, as frutas de viagem e a canga lilás. Em um fim de tarde inefável eu lia sobre o Teatro e a Peste. É. Vampiros frequentam a praia.
Tudo começou muito antes, na verdade. Antonin Artaud, teatrólogo francês dos meados do século XX, entrou pela janela do meu quarto, numa noite de lua, e inadvertidamente mordeu meu pescoço. O processo foi irreversível e está presente desde então em todo o meu trilhar artístico.
E agora, estará muito mais. Acabo de bater à porta do Castelo de Oz. E me deixaram entrar! Então, nos próximos dois anos, no Mestrado da Escola de Teatro, descobrirei sobre mim tudo o que conseguir até bater os calcanhares dos meus sapatinhos de rubi.
Referências que nada parecem ter em comum. E é assim que será. O meu Artaud vai à praia. Bebe conhaque. Ouve Los Hermanos. Fuma cigarros pretos. Realiza rituais ao som dos Beatles. Ou Cake. Ou Legião Urbana. Ou Led Zepelin. Ou. Meu Artaud é queer e absurdamente pop. Meu Artaud encontra a ardência do presente em lendas medievais. Meu Artaud se delicia com encontros sociais, sentado à mesa com os mais inusuais visitantes. Meu Artaud se divide e se multiplica nas possibilidades de perversão de 13 integrantes de um Núcleo.
Ele é meu e sou toda cruel. Toda. Todinha.
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Quinta-feira, Dezembro 03, 2009
Meu pai estava certo. O que eu quero não existe. Só nos meus melodramas. E eu sei, cada escolha tem consequências. A cada dia acredito mais que os caminhos tem sua sabedoria. Cada parada tem um motivo. Há um próximo nível. Quando pulamos, deixamos de aprender algo. Pois. Não deixem seus filhos em cercadinhos! Criança tem que explorar o mundo, ralar o joelho. Quebrar o queixo. E as vidraças. Adultos tem que namorar antes. Muito. E quebrar vidraças.

